28 de dezembro de 2013

Curso de Demonologia com Pe. Paulo Ricardo

Nos dias de hoje, muitas pessoas se sentem desconfortáveis ou até mesmo amedrontadas quando o assunto é Satanás e seus demônios. Qualquer menção, por menor que seja, sobre o Maligno faz brotar em suas mentes uma série de representações cheias de terror. Já outras, provavelmente influenciadas pela literatura e pelo cinema, são atraídas pelo mistério que envolve o tema. Porém, uma coisa é certa, falar do demônio suscita as reações mais adversas entre as pessoas.


Aula 1 - A existência do demônio

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Muitas pessoas se sentem desconfortáveis ou até mesmo amedrontadas quando o assunto é Satanás e seus demônios. Isso se deve, talvez, à ajuda prestada pela literatura e pelo cinema que, com suas representações, envolveu com um ar de mistério e temor a existência de entidades demoníacas e sua ação no mundo. Em alguns casos, vemos atitudes de total aversão ao tema, e em outros, uma curiosidade que vai da mais simples até a mais obsessiva.

Para os católicos, a existência do Diabo e seus demônios é uma verdade de fé. Isso significa que, para aqueles que aderem à Igreja Católica Apostólica Romana, crer na existência dos demônios não é uma opção. Trata-se de condição sine qua non, ou seja, não há um meio de se dizer católico sem se crer naquilo que a Igreja crê e ensina: que Satanás e seus anjos existem e atuam no mundo de modo a perder as almas. Diante disso não há o que temer, pois estudar e entender os seres demoníacos acaba sendo uma importante arma para evitar as suas ciladas. Para tanto, o ponto de partida deste curso será a teologia dogmática e o ponto de chegada a teologia ascético-mística. O curso, no decorrer das aulas, abordará questões basilares tais como a existência do demônio e suas ações para perder as almas (da tentação até a possessão, passando por todos os níveis dos ataques diabólicos).

O Catecismo da Igreja Católica, no número 391, traz uma citação do IV Concílio de Latrão: "Com efeito, o Diabo e outros demônios foram por Deus criados bons em (sua) natureza mas se tornaram maus por sua própria iniciativa". Ora, eles foram criados bons por Deus, mas, livremente escolheram rejeitá-Lo. Assim, pecaram contra Deus de maneira irrevogável. Movidos pelo ódio e pela inveja agiram e continuam agindo para a perdição das almas dos homens. Até mesmo Jesus foi alvo de suas tentações. O Catecismo segue explicando:

A Escritura atesta a influência nefasta daquele que Jesus chama de "homicida desde o princípio" (Jo 8,44) e que até chegou a tentar desviar Jesus da missão recebida do Pai. "Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para desviar as obras do Diabo" (1Jo 3,9). A mais grave dessas obras, devido às suas consequências, foi a sedução mentirosa que induziu o homem a desobedecer a Deus. (CIC 394)

Os sinais que corroboram a crença perene da Igreja na existência de Satanás e seus demônios, podem ser verificados nos textos da Sagrada Escritura e nos documentos e escritos do Magistério e da Tradição. Embasada nestes três pilares, não há como negar que esta crença faz parte da essência da fé católica.

O Padre José Antonio Sayés Bermejo, um dos teólogos mais importantes da atualidade, com mais de quarenta obras publicadas de teologia e filosofia, escreveu o livro “O Demónio: realidade ou mito?”, publicado pela Ed. Paulus, que servirá de guia para esta aula. Ele explica que o Antigo Testamento praticamente não fala da existência de Satanás e seus demônios, mas que o Novo Testamento apresenta uma explosão sobre o tema. Considerando-se os vocábulos que dizem respeito ao demônio, satanás, possessões, etc., o Novo Testamento apresenta cerca de 511 referências.

Como explicar essa desproporção entre o Antigo e o Novo Testamento? A pedagogia divina. No início da história da salvação, Deus estabelece com Abraão uma aliança e pede que não haja outros deuses além Dele (Ex 20,3). Com o passar do tempo, ensina ao povo de Israel que não existem outros deuses além Dele e, por meio dos profetas, inaugura a luta para livrar Israel da idolatria.

Quando o povo de Israel aceitou Deus como "Criador" e entendeu que o Diabo e seus demônios são também “criaturas”, apareceram as primeiras referências a eles. Isso se deu na época dos escritos sapienciais. Já no chamado intertestamento, tempo em que se não se teve escritos canônicos, mas tão-somente apócrifos, tais como os Manuscritos de Qumram, o I Livro de Enoc e outros relatos da apocalíptica judaica, começaram as primeiras elaborações teológicas acerca do Diabo e seus demônios.

Na plenitude dos tempos, quando Jesus veio ao mundo, nem todo o povo de Israel cria na existência de Satanás. Não era uma unanimidade de pensamento, como no caso dos saduceus que não criam de modo algum nos seres demoníacos. Portanto, é possível dizer que os teólogos modernos cometem um grave erro quando afirmam que a sociedade em que Jesus viveu possuía uma visão “mágica” das coisas e que Ele não quis se dar ao trabalho de desmitologizá-la. Segundo inúmeros relatos, Jesus soube contrapor-se muito bem à mentalidade da época, sem nunca fazer concessões.

Segundo o Pe. Sayés, Jesus cria na existência do Diabo e, para conprovar essa afirmação, apresenta três critérios: 1. a múltipla atestação: são inúmeras as referências existentes nos Evangelhos que narram a ação de Jesus contra os demônios; 2. a questão da descontinuidade: o povo de Israel esperava um Messias político, que o libertasse da opressão dos romanos (quebrando esta expectativa, Jesus prega a conversão e o Reino dos Céus); 3. a identidade de Jesus.

Em relação ao segundo critério, Joachim Jeremias, famoso exegeta protestante que se especializou no estudo do Jesus histórico, é categórico ao afirmar que as três tentações de Jesus no deserto versam sobre o messianismo político. A primeira, que propõe transformar pedras em pães, pode ser interpretada como uma tentativa de induzir o Senhor Jesus a ser o “novo Moisés”, libertando o povo como Moisés libertou o povo do Egito; a segunda, como receber os reinos do mundo para governar; a terceira, como transformar-se numa espécie de "super-homem", realizando algo fantástico e, então, ser seguido por todos.

Todas tentações políticas. Essa espécie de sedução rondou Jesus durante todo o seu ministério, mas Ele sempre resistiu, apresentando o Reino dos Céus como uma realidade espiritual. Portanto, seu inimigo era Satanás e seus demônios, não César.

Interessante são as palavras de Jesus, na famosa passagem em que foi acusado pelos fariseus de expulsar demônios em nome de Belzebu. Esse fato foi narrado nos Evangelhos de Marcos e Lucas, e também no de Mateus, do qual transcrevemos:

Jesus e Beelzebu - Então trouxeram-lhe um endemoninhado cego e mudo. E ele o curou, de modo que o mudo podia falar e ver. Toda a multidão ficou espantada e pôs-se a dizer: “Não será este o Filho de Davi?” Mas os fariseus, ouvindo isso, disseram: “Ele não expulsa os demônios, senão por Beelzebu, príncipe dos demônios”.

Conhecendo seus pensamentos, Jesus lhes disse: “Todo reino dividido contra si mesmo acaba em ruína e nenhuma cidade ou casa dividida contra si mesma poderá subsistir. Ora, se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, então, poderá subsistir seu reinado? Se eu expulso os demônios por Beelzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes. Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós. (12,22-28)

Trata-se de um texto evidentemente semítico e permeado de linguagem arcaica. Nisso, os exegetas veem um sinal claro de que se trata realmente de um fato histórico, novamente tomando por base o princípio da múltipla atestação. O reinado de Deus está intrinsecamente ligado ao combate contra Satanás, pois Jesus veio para romper a escravidão produzida pelo pecado para que Deus reine.

O terceiro critério citado pelo Pe. Sayés é a própria identidade de Jesus e a salvação que Ele veio trazer. Ela não se compreende sem se considerar a existência do Diabo e seus demônios. Jesus veio para livrar o homem do pecado, da morte e do Diabo. Esta realidade é tão presente no Novo Testamento que, se for retirada, tudo perde seu sentido. É por isso que se constitui quase que uma traição ao Evangelho a tendência moderna de desmitologização do Novo Testamento encarnada por Rudolf Bultmann. Crer que Jesus Cristo não combateu a Satanás e seus demônios é crer num Jesus diferente daquele narrado nos Evangelhos.

Jesus poderia ter dado aos fariseus qualquer outra resposta, até mesmo negando a existência de Beelzebu, já que não era uma crença unânime entre os judeus, conforme já dito. Mas não, Jesus foi enfático ao dizer que expulsava “pelo dedo de Deus”, definindo Ele mesmo sua obra de salvação.

Da mesma forma, o Novo Testamento, quando se refere ao Diabo, o faz sempre no viés soteriológico. Não existem grandes explicações acerca da natureza demoníaca, nem mesmo uma teoria a esse respeito. Os Santos Padres, porém, são unânimes em confirmar a existência dos demônios e passam a especular sobre a natureza deles. Eles se baseiam principalmente nos livros apócrifos, o que acabou por gerar algumas explicações absurdas. Finalmente, na Idade Média, com Santo Tomás de Aquino, firmou-se um pensamento teológico especulativo bastante sólido acerca da natureza do Diabo e seus demônios e do modo como eles agem.

Ao abordar um tema que suscita reações tão adversas entre as pessoas, mas que, ao mesmo tempo compõe de maneira inequívoca o depósito da fé católica, pretende-se iluminar, com a luz da Igreja, o que foi obscurecido pelo medo e pelo desconhecimento. Falar de Satanás e de seus demônios implica antes e principalmente falar da salvação comprada ao preço do precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus na cruz.


Um comentário:

  1. O curso de Demonologia diz que é gratis e não se consegue acessar as aulas sem se escrever para pagar

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